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The true dysfunctional lens

Bruno Trindade · Grande Campeão Refrativa — BRASCRS 2026

By Bruno Trindade • October 29, 2026

Trata-se de um paciente de 36 anos com queixa de baixa acuidade visual progressiva em ambos os olhos. Ele tem história prévia de transplante renal, além de dificuldade auditiva. Sua acuidade visual sem correção em ambos os olhos era de 20/1200 e melhorava discretamente para 20/400 com correção miópica. A biomicroscopia do segmento anterior, a olhos menos avisados, era inocente, sem alterações significativas que pudessem justificar tamanha baixa visual. O exame fundoscópico e a pressão intraocular também se mantinham dentro da normalidade.

Na realidade, esse paciente já havia consultado outros três colegas oftalmologistas, que mencionaram o diagnóstico de ambliopia como possível explicação para suas queixas.

Entretanto, ao se dilatar a pupila, o diagnóstico torna-se óbvio. Nota-se uma clara protrusão da cápsula anterior, inclusive com uma discreta opacidade lenticular anterior central (Figuras 1 e 2).

Figura 1 - Aspecto biomicroscópico do olho esquerdo após a dilatação pupilar. Nota-se a protrusão da cápsula anterior, caracterizando o lenticone anterior

Figura 2 - Tomografia de Scheimpflug mostrando anormalidade do contorno anterior do cristalino

Diante desse quadro, apesar de o cristalino manter-se transparente, optou-se pela cirurgia de catarata (ou, mais precisamente, cirurgia refrativa terapêutica do cristalino). Durante o procedimento, a confecção da capsulorrexe anterior é um dos maiores desafios, já que a cápsula, além de elástica, como é comum em todos os pacientes jovens, é muito fina e quebradiça, especialmente em sua região central (Figura 3).

Figura 3 - A confecção da capsulorrexe anterior é o ponto de maior desafio nas cirurgias de olhos com lenticone anterior. Note como a cápsula anterior é delgada em sua porção mais central

No entanto, na média periferia, onde os limites da abertura capsular são estabelecidos, o comportamento da cápsula é mais próximo do usual. A facoaspiração transcorreu sem maiores dificuldades, e uma lente intraocular monofocal tórica foi implantada dentro do saco capsular (Figura 4).

The true dysfunctional lens

Figura 4 - Aspecto ao final da cirurgia, com a LIO tórica implantada dentro do saco capsular

A cirurgia do olho contralateral foi realizada uma semana depois e também transcorreu sem intercorrências. O resultado visual desse paciente foi excelente. Dois meses após a cirurgia, ele apresentava visão sem correção de 20/25, melhorando para 20/20 com +0,50 -0,50 × 170 (Figura 5).

Figura 5 - Aspecto pós-operatório do olho esquerdo

A síndrome de Alport é uma doença genética rara que afeta um em cada 50.000 nascidos vivos. Ela afeta o gene COL4A5, responsável pela produção do colágeno tipo IV. A herança é ligada ao X em 85% dos casos, o que torna a doença muito mais prevalente entre homens. Essa síndrome caracteriza-se pela presença de insuficiência renal com proteinúria e hematúria, perda auditiva neurossensorial adquirida, além do lenticone anterior.

O quadro ocular pode cursar com baixa visual e miopia associada. Em quadros mais iniciais, a protrusão anterior da cápsula é difícil de ser identificada, e o sinal da gota de óleo no reflexo vermelho pode ser o único achado (Figura 6).

Figura 6 - O sinal da gota de óleo no reflexo vermelho pode ser o único achado ao exame, especialmente em quadros mais iniciais de lenticone anterior

Fizemos um levantamento em nosso serviço e, dentre 14.936 casos operados entre 2020 e 2024, pudemos identificar seis olhos de três pacientes não consanguíneos com lenticone anterior nesse período. É interessante notar que todos os pacientes já haviam sido submetidos a transplante renal devido à falência renal causada pela doença. Além disso, dois dos três pacientes já haviam sido avaliados por outros colegas oftalmologistas sem que o diagnóstico definitivo tivesse sido estabelecido.

Dessa forma, a síndrome de Alport deve ser sempre suspeitada em quadros de baixa visual progressiva em homens jovens, especialmente quando associada a alterações renais e dificuldade auditiva. O diagnóstico preciso pode evitar que esses pacientes permaneçam com a visão comprometida. A cirurgia de catarata é o tratamento definitivo e deve ser realizada ainda que não haja opacidades no cristalino. Em nossa opinião, o lenticone anterior é a forma mais clara e definitiva de uma disfunção cristaliniana, e seu tratamento deve ser considerado uma cirurgia refrativa terapêutica intraocular.

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