Pular para o conteúdo

Síndrome de Morning Glory diagnosticada tardiamente em paciente adulta: correlação multimodal e implicações no prognóstico visual — relato de caso

Danillo Miranda Fernandes, Sebastian Cantor, Raphael D. I. Gese, Ariane Sandes, Alexandra Mauriel Reis e Leonardo Figueiredo · 1º lugar Pôster — BRASCRS 2026

Por Danillo Miranda Fernandes e colaboradores • 29 de outubro de 2026

Resumo

A anomalia do disco óptico Morning Glory, também denominada síndrome de Morning Glory (SMG), é uma rara malformação congênita caracterizada por escavação infundibuliforme do disco óptico, tecido glial central, alterações pigmentares peripapilares e disposição radial dos vasos retinianos. Embora usualmente reconhecida na infância, apresentações diagnosticadas na idade adulta podem ocorrer e representam importante desafio, sobretudo quando a baixa acuidade visual é atribuída a causas potencialmente reversíveis. Relata-se o caso de uma paciente de 60 anos, com baixa acuidade visual de 20/400 e exotropia no olho esquerdo, que procurou avaliação oftalmológica com expectativa de realização de facoemulsificação. A retinografia demonstrou disco óptico ampliado, escavação infundibuliforme, tecido glial central e distribuição radial dos vasos retinianos. A ultrassonografia evidenciou aumento do comprimento axial e alteração estrutural retrobulbar. A tomografia de coerência óptica tridimensional demonstrou escavação extensa, cuja profundidade excedeu 2.000 µm, além de reconstruções transversal e coronal que evidenciaram arquitetura característica semelhante à flor Ipomoea. O reconhecimento da origem congênita e estrutural da deficiência visual permitiu adequado aconselhamento quanto ao prognóstico visual reservado. O caso demonstra que a SMG deve ser considerada mesmo em pacientes adultos sem diagnóstico prévio e ressalta o valor da avaliação multimodal para o diagnóstico diferencial e para o estabelecimento de expectativas terapêuticas realistas.

Palavras-chave: Morning Glory. Disco óptico. Tomografia de coerência óptica. Anomalias congênitas. Baixa visão.

Abstract

Morning glory disc anomaly (MGDA), also referred to as morning glory syndrome, is a rare congenital optic disc malformation characterized by funnel-shaped excavation of the optic nerve head, a central glial tuft, peripapillary pigmentary abnormalities, and radially oriented retinal vessels. Although typically diagnosed during childhood, delayed recognition in adulthood may occur and poses an important clinical challenge, particularly when visual impairment is attributed to potentially reversible conditions. We report a 60-year-old patient with visual acuity of 20/400 and exotropia in the left eye who sought ophthalmological evaluation expecting phacoemulsification. Fundus photography revealed an enlarged optic disc, funnel-shaped excavation, central glial tissue, and radially distributed retinal vessels. Ultrasonography demonstrated increased axial length and a retrobulbar structural abnormality. Three-dimensional optical coherence tomography revealed extensive excavation exceeding 2,000 µm and transverse and coronal reconstructions showing the characteristic architecture resembling the Ipomoea flower. Recognition of the congenital structural origin of visual impairment allowed appropriate counseling regarding the limited visual prognosis. This case shows that MGDA should remain in the differential diagnosis even in previously undiagnosed adults and highlights the value of multimodal evaluation for diagnosis and realistic therapeutic counseling.

Keywords: Morning glory disc anomaly. Optic disc. Optical coherence tomography. Congenital abnormalities. Low vision.

1. Introdução

A anomalia do disco óptico Morning Glory (Morning Glory Disc Anomaly - MGDA), frequentemente denominada Síndrome de Morning Glory (SMG), constitui uma rara alteração congênita do disco óptico. Sua denominação deriva da semelhança morfológica entre o aspecto fundoscópico do disco e a flor Ipomoea, conhecida como morning glory. Classicamente, observa-se disco óptico aumentado, escavação profunda e infundibuliforme, tecido glial esbranquiçado central, pigmentação peripapilar variável e vasos retinianos emergindo radialmente da periferia do disco.

A condição é incomum. Em estudo populacional envolvendo crianças e adolescentes, Ceynowa et al. (2015) encontraram prevalência de 2,6 casos por 100.000 indivíduos. Nesse estudo, 11 dos 12 pacientes apresentavam acometimento unilateral, e a acuidade visual no olho afetado mostrou ampla variabilidade funcional.

A etiopatogênese permanece incompletamente compreendida. Entre as hipóteses propostas encontram-se alterações do desenvolvimento mesenquimal e neuroectodérmico, com desenvolvimento anormal da lâmina crivosa, fechamento incompleto da parede escleral posterior e alterações do desenvolvimento do pedículo óptico distal. Métodos modernos de imagem têm contribuído para uma compreensão anatômica mais detalhada dessas alterações.

Embora a fundoscopia permaneça fundamental para o reconhecimento da anomalia, métodos de imagem multimodal, especialmente a tomografia de coerência óptica (OCT), fornecem informações adicionais sobre a anatomia do disco, retina peripapilar e mácula e auxiliam no reconhecimento de complicações. A neuroimagem também possui relevância devido à associação da SMG com anormalidades intracranianas e vasculares.

A maioria dos casos é identificada durante a infância, frequentemente durante investigação de baixa visão, estrabismo ou leucocoria. Entretanto, diagnósticos tardios são descritos. Nesse contexto, o presente estudo relata um caso de SMG diagnosticado aos 60 anos, no qual a expectativa de melhora visual mediante facoemulsificação tornou necessária a determinação precisa da contribuição de uma alteração congênita e irreversível para a deficiência visual. O relato foi desenvolvido a partir do e-pôster “A papila em flor: anomalia Morning Glory, seus achados fundoscópicos com grandes implicações”, apresentado pelos autores.

2. Relato do caso

Paciente de 60 anos apresentou-se para avaliação oftalmológica com baixa visão no olho esquerdo (OE), acuidade visual de 20/400 e exotropia. A paciente buscava realização de facoemulsificação, com expectativa de recuperação visual após o procedimento.

A investigação do segmento posterior revelou alterações incompatíveis com uma redução visual atribuível exclusivamente à opacidade cristaliniana. À retinografia, observou-se disco óptico ampliado, com marcada escavação infundibuliforme, tecido glial central e disposição radial dos vasos retinianos, descrita como padrão spoke-like. Esses achados possuem elevada correspondência com a descrição clássica da SMG.

Figura 1 - Retinografia: disco óptico ampliado, escavação infundibuliforme, tecido glial central e vasos radiais (spoke-like)

A ultrassonografia ocular demonstrou aumento do comprimento axial e alteração descrita no estudo original como “vazio estrutural retrobulbar”. A OCT tridimensional demonstrou escavação de grandes dimensões, com profundidade superior a 2.000 µm, ultrapassando a capacidade de mensuração do software utilizado.

Figura 2 - Ultrassonografia: aumento do comprimento axial e vazio estrutural retrobulbar

As reconstruções transversal e coronal permitiram caracterizar tridimensionalmente a escavação. Particularmente na reconstrução coronal, a disposição anatômica reproduziu visualmente a morfologia da flor Ipomoea, reforçando a correlação que originou a denominação da síndrome.

Figura 3 - OCT 3D: escavação gigante, com profundidade que excedeu a sensibilidade do software (>2.000 µm), apresentando arquitetura transversal (Fig. 3.1) e coronal (Fig. 3.2) que mimetiza a flor Ipomoea.

A paciente desconhecia a natureza congênita da alteração ocular. Conforme registrado no trabalho original, seu contexto de vulnerabilidade socioeconômica contribuiu para que a condição permanecesse sem diagnóstico até a idade adulta. Diante da correlação entre os achados fundoscópicos e tomográficos, estabeleceu-se o diagnóstico de Síndrome de Morning Glory. O reconhecimento da malformação foi determinante para o aconselhamento pré-operatório, permitindo esclarecer que a deficiência visual apresentava importante componente estrutural congênito e que a cirurgia de catarata não deveria ser apresentada como garantia de recuperação substancial da acuidade visual.

3. Discussão

O presente caso apresenta três aspectos particularmente relevantes: o diagnóstico aos 60 anos, a demonstração anatômica multimodal da anomalia e sua descoberta no contexto de expectativa de recuperação visual após facoemulsificação.

3.1 Diagnóstico tardio

A SMG é congênita, mas a natureza congênita da doença não significa necessariamente que seu diagnóstico seja realizado precocemente. A literatura contém relatos de identificação em adultos, inclusive em pacientes que conviveram por décadas com baixa visão unilateral e estrabismo. Esse aspecto encontra correspondência direta com o presente caso, no qual a paciente apresentava baixa visão acentuada e exotropia no OE aos 60 anos, mas desconhecia a etiologia congênita de sua limitação visual.

A situação é particularmente relevante no contexto da cirurgia de catarata. A presença concomitante de catarata não significa necessariamente que a opacificação do cristalino seja a principal responsável pela limitação visual. A identificação de uma anomalia estrutural grave do disco óptico modifica substancialmente o prognóstico funcional esperado e, consequentemente, a comunicação médico-paciente.

3.2 Achados fundoscópicos e contribuição da OCT

Síndrome de Morning Glory diagnosticada tardiamente em paciente adulta: correlação multimodal e implicações no prognóstico visual — relato de caso

A fundoscopia é elemento central para o diagnóstico. A aparência clássica inclui escavação profunda e afunilada, tecido glial central e vasos retinianos dispostos radialmente. No presente caso, esses elementos estavam claramente presentes. Essa concordância entre a descrição clássica e o fenótipo observado torna particularmente apropriada a expressão empregada no e-pôster, “A papila em flor”.

A OCT assumiu papel relevante na caracterização das anomalias congênitas escavadas do disco óptico. A técnica permite avaliação transversal e en face da arquitetura do nervo óptico e das estruturas retinianas adjacentes, além da identificação de alterações maculares e peripapilares. No caso apresentado, a profundidade da escavação superou 2.000 µm e excedeu a sensibilidade do software utilizado. As reconstruções tridimensionais transversal e coronal demonstraram de forma particularmente didática a morfologia da anomalia.

3.3 Diagnóstico diferencial

O diagnóstico diferencial deve incluir principalmente coloboma do disco óptico, estafiloma peripapilar e optic disc pit. O coloboma caracteriza-se tipicamente por escavação esbranquiçada predominantemente inferior e não apresenta, de maneira característica, a combinação de tecido glial central, pigmentação peripapilar e padrão vascular radial encontrada na SMG. O estafiloma peripapilar consiste em escavação profunda ao redor do disco, mas geralmente apresenta vasculatura retiniana relativamente normal e ausência do típico tufo glial central.

No presente caso, a combinação de escavação infundibuliforme, tecido glial e padrão vascular radial, somada à caracterização pelo OCT, favoreceu fortemente a SMG em relação ao coloboma e ao estafiloma posterior.

3.4 Descolamento de retina e acompanhamento

Uma das principais complicações oculares associadas à SMG é o descolamento de retina. O estudo clássico de Haik et al. (1984) acompanhou 30 pacientes por média de 10,3 anos e encontrou descolamento de retina em 11 pacientes, aproximadamente 36,7%. Os autores também observaram comportamento variável, incluindo casos de reaplicação espontânea e novo descolamento.

Trabalhos contemporâneos continuam demonstrando que o descolamento associado à SMG apresenta mecanismos complexos e pode assumir diferentes apresentações clínicas. Consequentemente, mesmo quando a anomalia estrutural em si não possui tratamento capaz de normalizar o disco óptico, o acompanhamento permanece necessário para identificação de complicações potencialmente tratáveis.

3.5 Associações sistêmicas e neuroimagem

A literatura descreve associação da SMG com defeitos da linha média e da base do crânio, encefalocele basal, alterações hipofisárias e anormalidades cerebrovasculares, incluindo arteriopatia do tipo moyamoya. Estudos recentes reforçaram essa relação e destacaram o papel da ressonância magnética na avaliação da via óptica e no rastreamento de anormalidades intracranianas, vasculares e craniofaciais associadas.

3.6 Implicação clínico-ética e aconselhamento pré-operatório

A paciente procurou atendimento esperando realizar facoemulsificação. Entretanto, a investigação revelou uma alteração congênita grave capaz de justificar importante parcela da baixa acuidade visual. Assim, estabelecer corretamente o diagnóstico modificou não apenas a classificação anatômica da doença, mas também o consentimento informado e a expectativa terapêutica.

Uma cirurgia de catarata pode remover a opacidade do cristalino, mas não corrige uma malformação congênita do nervo óptico. A distinção entre componente reversível e irreversível da deficiência visual é essencial para evitar expectativas desproporcionais de recuperação. No caso apresentado, esse aconselhamento adquiriu importância adicional porque a paciente desconhecia a origem congênita da doença. Dessa maneira, o valor do diagnóstico ultrapassa sua dimensão nosológica e interfere diretamente na qualidade da decisão compartilhada entre médico e paciente.

4. Conclusão

A Síndrome de Morning Glory é uma rara malformação congênita do disco óptico cujo fenótipo fundoscópico característico resulta da associação entre escavação infundibuliforme, tecido glial central e disposição radial dos vasos retinianos. Embora habitualmente reconhecida durante a infância, a condição pode permanecer sem diagnóstico até a idade adulta.

O presente caso demonstra diagnóstico aos 60 anos em paciente com acuidade visual de 20/400 e exotropia no olho esquerdo que procurou atendimento com expectativa de melhora visual após facoemulsificação. A associação entre retinografia, ultrassonografia e OCT tridimensional permitiu caracterização anatômica detalhada da malformação, incluindo escavação superior a 2.000 µm e reconstrução coronal que reproduziu a aparência da flor Ipomoea.

Além do valor diagnóstico, o caso ressalta uma implicação clínica fundamental: identificar corretamente uma causa estrutural congênita de baixa visão antes de uma intervenção destinada a tratar uma alteração potencialmente reversível é essencial para definir prognóstico e estabelecer expectativas terapêuticas realistas. Diante das associações descritas entre SMG, alterações retinianas, malformações da base do crânio e anormalidades cerebrovasculares, o reconhecimento da condição deve motivar avaliação clínica abrangente e acompanhamento individualizado.

Referências

1. Lee BJ, Traboulsi EI. Update on the morning glory disc anomaly. Ophthalmic Genet. 2008;29(2):47-52. doi:10.1080/13816810801901876.

2. Haik BG, Greenstein SH, Smith ME, Abramson DH, Ellsworth RM. Retinal detachment in the morning glory anomaly. Ophthalmology. 1984;91(12):1638-47. doi:10.1016/S0161-6420(84)34103-3.

3. Firouzabadi FD, Soldatelli MD, Rameh V, Heidary G, Vargas SO, Gonzalez E, et al. Morning glory disc anomaly: expanding the MR phenotype. AJNR Am J Neuroradiol. 2024;45(8):1070-5. doi:10.3174/ajnr.A8296.

4. Ní Leidhin C, Erickson JP, Bynevelt M, Lam G, Lock JH, Wang G, et al. (What’s the story) morning glory? MRI findings in morning glory disc anomaly. Neuroradiology. 2024;66(7):1225-33. doi:10.1007/s00234-024-03375-2.

5. See AP, LoPresti MA, Treiber J, Thomas B, Karsten MB, Riordan CP, et al. Morning glory disc anomaly and its implications in moyamoya arteriopathy: a retrospective case series. J Neurosurg Pediatr. 2023 Mar 17:1-7. doi:10.3171/2023.2.PEDS22470. Publicação eletrônica antecipada.

6. Bassi ST, Verma A. Optical coherence tomography in a morning glory disc anomaly with a peripapillary choroidal neovascular membrane. Neuroophthalmology. 2024;48(1):27-9. doi:10.1080/01658107.2023.2255665.

7. Zou Y, Wang X, Li J, Peng J, Zhao P. Natural course for retinal detachment in morning glory disc anomaly based on a grading system. Asia Pac J Ophthalmol (Phila). 2024;13(1):100041. doi:10.1097/APO.0000000000000572.

8. Wu S, Wang W, Liu L, Wang W, Jiang K, Peng C, et al. Progress in the management of retinal detachment associated with morning glory syndrome. Clin Ophthalmol. 2025;19:459-68. doi:10.2147/OPTH.S505086.

Faça parte da BRASCRS

Tenha acesso a conteúdos, atualizações e oportunidades exclusivas para profissionais da área.

Associe-se